Bloco europeu acusa autoridades russas de transferência forçada, doutrinação e mudança de identidade de menores durante a guerra
A União Europeia aprova, nesta segunda-feira, 11 de maio, novas sanções contra autoridades e instituições russas acusadas de envolvimento na deportação em massa de crianças ucranianas desde o início da guerra na Ucrânia.
Segundo governos europeus e organismos internacionais, mais de 20 mil crianças teriam sido transferidas à força para a Rússia ou para territórios ocupados pelas forças russas desde fevereiro de 2022.
A União Europeia afirma que parte dessas crianças sofre alteração de identidade, adoção irregular por famílias russas e inserção em programas de doutrinação política e educação militarizada.
Relatos de crianças
Entre os relatos citados está o de Ilya, menino natural de Mariupol que afirma ter sido levado para Donetsk aos 9 anos.
“Eles tentaram me transformar em um instrumento de propaganda. Me ensinaram a escrever em russo e disseram que eu não poderia mais dizer ‘Glória à Ucrânia’”, relata.
A vice-ministra das Relações Exteriores da Ucrânia, Mariana Betsa, afirma que muitas crianças já não mantêm vínculos com o país de origem.
“Essas crianças tiveram seus dados pessoais alterados e não se lembram mais da Ucrânia. É uma tragédia humana”, declara.
Sanções e acusações
As medidas atingem 16 pessoas e sete entidades acusadas de participação nas transferências forçadas e nos programas de assimilação.
Entre os alvos estão responsáveis por acampamentos infantis, representantes do governo russo, militares e organizações ligadas ao Ministério da Educação da Rússia.
Segundo o Conselho da União Europeia, os acusados participam de um sistema “sistemático” de deportação ilegal e assimilação forçada de menores ucranianos.
O bloco europeu também acusa instituições localizadas na Crimeia de promoverem treinamento militar, propaganda política e reeducação ideológica de crianças.
Investigação internacional
O caso já é investigado pelo Tribunal Penal Internacional.
Em 2023, o tribunal emite mandado de prisão contra o presidente Vladimir Putin por suspeita de responsabilidade direta nas deportações ilegais.
Relatórios das Nações Unidas também apontam que as transferências podem configurar crimes contra a humanidade.
A ministra das Relações Exteriores da Letônia, Baiba Braže, afirma que as práticas podem se enquadrar em elementos previstos na Convenção sobre Genocídio.
Retorno das crianças
Até o momento, cerca de 2,2 mil crianças conseguem retornar à Ucrânia, segundo estimativas europeias.
Autoridades afirmam que a identificação e repatriação dos menores se torna mais difícil nos casos de crianças muito pequenas, que perdem referências familiares e passam anos submetidas a programas de assimilação cultural.
A União Europeia afirma que continuará ampliando a cooperação diplomática e jurídica para localizar as crianças e responsabilizar os envolvidos.
Fonte: G1 Globo
Foto: REUTERS/Kevin Lamarque

