Crise hídrica expõe desigualdade no acesso à água no Peru e impulsiona projetos com apoio da China

Seca, falhas estruturais e disputa por recursos pressionam agricultura e abastecimento no norte do país

Enfrentar a escassez de água e reorganizar a gestão hídrica se torna um dos principais desafios do Peru, onde eventos climáticos extremos e falhas estruturais agravam o acesso ao recurso, especialmente na região de Piura.

A crise impacta diretamente agricultores e moradores. No campo, perdas agrícolas atingem milhares de produtores. Nas cidades, famílias dependem de caminhões-pipa para garantir o abastecimento básico.

“Perdi esses dois hectares para a seca. Ainda não os recuperei”, afirma o agricultor Yhon Silupú Córdova, ao relatar os efeitos da estiagem em sua propriedade.

Impacto econômico e social

A seca registrada em 2024 provoca prejuízos estimados em até 1,3 bilhão de soles e coloca cerca de 60 mil empregos em risco, segundo dados da Câmara de Comércio de Piura.

A crise também evidencia desigualdade no acesso à água. Levantamentos indicam que grandes empresas agrícolas concentram a maior parte das licenças hídricas, enquanto pequenos produtores enfrentam escassez.

Além disso, a produção de água potável não acompanha a demanda. A oferta chega a cerca de 1,5 mil litros por segundo, abaixo dos 2,4 mil necessários para atender a população.

Falhas estruturais

A redução das chuvas intensifica o problema, mas especialistas apontam deficiências no sistema hídrico como fator central. Mais da metade das áreas com potencial agrícola na região não possui infraestrutura de irrigação.

Esse cenário pressiona a produção de alimentos e amplia conflitos pelo uso da água.

Entrada da China nos projetos

Diante do cenário, o governo peruano anuncia, em 2025, a vitória da China em licitação internacional para executar dois megaprojetos hídricos na região.

As iniciativas incluem a modernização do reservatório Poechos e o desenvolvimento do Projeto Especial de Irrigação e Hidrelétrico do Alto Piura, considerados estratégicos para ampliar o acesso à água e fortalecer a produção agrícola.

“O principal obstáculo não tem sido técnico, mas político”, afirma o biólogo Mario Montero, professor da Universidade Nacional de Piura.

Infraestrutura e interesses estratégicos

Além da crise hídrica, a região de Piura ganha relevância econômica por concentrar exportações agrícolas importantes, como manga, limão, uva e abacate.

O avanço de investimentos chineses também alcança setores como mineração e comércio, ampliando a presença do país asiático em áreas estratégicas do Peru.

Desafios e incertezas

Apesar do potencial dos projetos, especialistas apontam riscos relacionados a financiamento, mudanças políticas e execução das obras.

“O sucesso depende de um plano administrativo rigoroso e segurança jurídica”, afirma o economista Miguel Zapata.

A proximidade de eleições no país também pode influenciar o andamento das iniciativas, historicamente afetadas por mudanças de governo.

Realidade no campo

Enquanto projetos seguem em discussão, a população ainda enfrenta dificuldades imediatas.

“A água é urgente para nós”, resume o agricultor Yhon Silupú, diante de um cenário onde soluções estruturais ainda não chegaram ao cotidiano de quem depende diretamente do recurso.

Fonte: Nexo Jornal/ Dialogue Earth

Foto: Ralph Zapata

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