Conteúdos que simulam agressões após rejeição ganham repercussão internacional e levantam debate sobre responsabilização nas redes
Repercussão internacional
Conteúdos que simulam agressões contra mulheres após rejeição ganham visibilidade global e colocam o Brasil no centro de um debate sobre misoginia digital. A trend “Caso ela diga não” passa a ser alvo de veículos da imprensa francesa, que destacam o crescimento de vídeos com encenação de violência masculina em plataformas como o TikTok.
“No Brasil, vídeos que promovem violência contra mulheres se tornaram virais no TikTok”, aponta o jornal Le Parisien, ao descrever conteúdos em que homens aparecem “treinando e esfaqueando bonecos de treino”, classificados como cada vez mais violentos e acessíveis.
Casos reais associados à trend
A repercussão internacional se apoia em episódios concretos de violência. O caso de Alana Anisio Rosa, de 20 anos, é citado como exemplo. A jovem sofreu tentativa de feminicídio em São Gonçalo, no Rio de Janeiro, após recusar investidas de um homem.
Segundo a mãe da vítima, Jaderluce Anisio de Oliveira, o agressor teria se inspirado em vídeos da própria trend, que mostram simulações de ataques a mulheres.
O autor do crime, Luiz Felipe Sampaio, de 22 anos, foi preso em flagrante.
Escalada de violência e dados
A cobertura internacional relaciona a disseminação desse tipo de conteúdo ao cenário estrutural de violência de gênero no país. Em 2023, o Brasil registrou 1.586 feminicídios, segundo o Fórum Brasileiro de Segurança Pública. Isso representa uma média de mais de quatro mulheres assassinadas por dia por razões de gênero.
Além disso, o Anuário Brasileiro de Segurança Pública aponta que mais de 245 mil casos de violência doméstica foram registrados no mesmo período, evidenciando um cenário de alta recorrência.
Levantamentos recentes indicam ainda que cerca de 8 em cada 10 vítimas de feminicídio são mortas por parceiros ou ex-parceiros, reforçando a conexão entre violência simbólica, como a disseminada nas redes, e a violência real.
Normalização da violência
A análise crítica da imprensa europeia aponta que o conteúdo deixa de ser apenas simbólico e passa a influenciar comportamentos.
“No Brasil, a ficção se tornou realidade”, afirma a jornalista Mathilde Serrell, da rádio France Inter, ao comentar a transição entre conteúdo digital e casos reais de violência.
Ela descreve vídeos em que homens “espancam, esfaqueiam, atiram contra manequins” que representam mulheres que rejeitam relações, reforçando a banalização da agressão.
Outros casos e discurso masculinista
O site do canal France 24 cita episódios recentes que reforçam o avanço desse tipo de discurso. Entre eles, o assassinato da policial Gisele Alves Santana, atribuído ao marido, Geraldo Leite Rosa Neto.
Mensagens divulgadas indicam a reprodução de conceitos como “macho alfa” e submissão feminina, associados a comunidades digitais masculinistas.
Reação e cobrança por punição
Nas redes sociais, cresce a pressão por responsabilização dos criadores e disseminadores desses conteúdos. Usuários questionam a ausência de medidas efetivas por parte das plataformas e autoridades.
“Se uma mulher disser não, a melhor resposta possível é respeito”, afirma um jovem em vídeo divulgado pela plataforma Brut, que reúne conteúdos contrários à trend.
Internautas também destacam que muitos vídeos ultrapassam milhares de visualizações, ampliando o alcance e potencial impacto do conteúdo.
Debate legislativo
O tema se conecta ao debate sobre o chamado “PL da Misoginia”, em tramitação na Câmara dos Deputados. A proposta busca ampliar mecanismos de combate à violência de gênero, incluindo punições para conteúdos que incentivem agressões.
A repercussão internacional pressiona por respostas institucionais mais rápidas e evidencia um ponto crítico: a velocidade de disseminação desses conteúdos supera a capacidade de regulação e resposta do Estado.
O cenário expõe uma falha operacional clara. Enquanto a violência simbólica escala nas redes, a resposta institucional ainda opera em ritmo lento, criando um ambiente propício para a normalização da misoginia e da violência contra mulheres.
Fonte: G1 Globo
Foto: TikTok/ Reprodução

