Enquanto Azteca do México abre a Copa do Mundo, Asteka de Manaus mantém viva sua própria história

Campo criado por moradores do bairro Coroado há mais de 40 anos resiste ao tempo e preserva memórias ligadas ao tricampeonato da Seleção Brasileira de 1970

Nesta quinta-feira (11), os olhos do mundo se voltam para o lendário Estádio Azteca, na Cidade do México. Palco de momentos históricos do futebol mundial, o estádio recebe a abertura da Copa do Mundo de 2026 e se torna o primeiro da história a sediar três partidas inaugurais do torneio.

A milhares de quilômetros dali, no bairro Coroado, na zona Leste de Manaus, outro Azteca — escrito com “s” e “k” — também segue fazendo história. O campo Asteka, criado pelos próprios moradores no início da década de 1980, permanece como um dos principais espaços de convivência, esporte e integração social da comunidade.

Origem comunitária

Antes de se transformar em referência para o futebol amador da região, o Asteka era apenas uma área aberta dentro do conjunto Jardim Asteka. Sem apoio institucional ou investimento público, a construção do espaço aconteceu por meio de mutirões organizados pelos próprios moradores.

Entre os pioneiros está o músico Marquinhos Negritude, que participou diretamente da formação do campo.

“Na década de 80 procurávamos um lugar e, com os amigos, criamos. A força do futebol venceu. Hoje é um lugar de encontro. Todo mundo se encontra. Mas no início não era fácil. Eu ia em casa e quando chegava, o campo estava cheio de caco de garrafa. Tinha morador que não queria o espaço. A gente limpava tudo de novo”, recorda.

Com o passar dos anos, a estrutura foi sendo ampliada graças ao esforço coletivo dos frequentadores.

“Todo mundo paga uma taxa. Quem não tem também participa. A arquibancada foi feita com dinheiro da comunidade. Só dinheiro da comunidade. A democracia impera aqui”, acrescenta.

Resistência e preservação

A história do Asteka também é marcada pela luta para garantir a permanência do espaço. Atual presidente da Liga Esportiva do Asteka, Valter Filho acompanha essa trajetória desde a infância.

Segundo ele, o campo enfrentou diversas tentativas de ocupação e descaracterização ao longo das décadas.

“Por várias vezes tentaram acabar com o campo. A comunidade teve que reagir. Criamos uma liga esportiva para defender esse espaço. Um camarada entrou aqui e fez até uma fossa dentro do campo. A comunidade teve que intervir e hoje tem escolinha, tem funcional, tem jogo todos os dias. Virou um movimento social da comunidade”, afirma.

Atualmente, além das partidas de futebol, o local recebe atividades físicas, escolinhas esportivas e ações voltadas aos moradores do entorno.

Herança da Copa de 1970

A ligação entre o Asteka de Manaus e o Azteca mexicano vai além da semelhança no nome. Parte dessa conexão passa pela paixão de moradores pelo tricampeonato conquistado pelo Brasil na Copa de 1970.

Valter Filho nasceu apenas 36 dias após a conquista brasileira. Seu pai pretendia homenagear o craque Roberto Rivelino ao registrar o primeiro filho, mas acabou mudando de ideia. Alguns anos depois, o segundo filho recebeu o nome do camisa 11 da Seleção.

Hoje, Roberto Rivelino Nascimento da Silveira continua frequentando o Asteka e carrega com orgulho a homenagem.

“Nome de craque, sim. Já joguei. Já passou um bom tempo, mas joguei”, brinca.

Personagens que fazem parte da história

Ao longo das décadas, o Asteka reuniu personagens que se tornaram conhecidos pelo bairro. Um deles é Francisco Paulo dos Santos Gonçalves, chamado por todos de Garrincha.

O apelido surgiu ainda na infância, inspirado no bicampeão mundial brasileiro.

“Quando eu tinha sete anos, meu pai colocou esse apelido. Ele se baseou no jogador e também porque eu brincava muito pela lateral”, conta.

Mais do que o futebol, Garrincha destaca o espírito de solidariedade construído entre os frequentadores.

“O Asteka é uma família. Uma família mesmo. Você leva um baque, não pode jogar e a primeira coisa que a diretoria faz é ajudar. Procura remédio, procura uma forma de ajudar”, relata.

Muito além das quatro linhas

Para quem frequenta o local, o Asteka ultrapassou há muito tempo a condição de simples campo de futebol. O espaço se consolidou como ponto de encontro, convivência e fortalecimento dos laços comunitários.

“O grande gol daqui é a união das pessoas. É fazer com que esse local sirva além do futebol, para a parte social”, resume Marquinhos Negritude.

Enquanto o Estádio Azteca recebe mais uma abertura de Copa do Mundo e entra novamente para a história do futebol internacional, o Asteka de Manaus segue cumprindo sua missão diária. Sem holofotes, mas com uma trajetória construída pela própria comunidade e preservada por gerações de moradores do Coroado.

Fonte: Ge Amazomas

Foto: Reprodução/Larry Wilcox

Você pode gostar disso

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *