Mudança adotada pelo governo Trump permite troca de informações entre órgãos federais e aumenta detenções de famílias de menores desacompanhados
O compartilhamento de dados de crianças imigrantes desacompanhadas e de seus responsáveis entre órgãos do governo dos Estados Unidos levou à detenção de mais de 12 mil pessoas desde o início do segundo mandato do presidente Donald Trump. A informação consta em registros internos analisados pela agência Reuters e revela uma mudança na política migratória do país.
Compartilhamento de informações amplia ações do ICE
Segundo a Reuters, desde janeiro de 2025, o Escritório de Reassentamento de Refugiados (ORR) compartilhou mais de 460 mil registros com o Serviço de Imigração e Controle de Alfândegas (ICE). As informações incluem dados de crianças desacompanhadas, pais, parentes responsáveis e outros moradores das residências.
Historicamente, o ORR mantinha separadas as atividades de proteção às crianças migrantes das ações de fiscalização migratória. Uma lei de 2008 determinava que menores desacompanhados fossem encaminhados ao ambiente menos restritivo possível e liberados para familiares quando houvesse segurança, independentemente da situação migratória dos responsáveis.
Com a nova política, esses dados passaram a subsidiar investigações e operações do ICE.
Famílias relatam detenções após reunificação
A Reuters relata o caso de Aurora, imigrante que vive nos Estados Unidos e conseguiu reunir-se com a filha de seis anos após mais de seis meses de espera. Dias depois do reencontro, mãe e filha foram detidas pelo ICE durante uma visita a um escritório da imigração e encaminhadas a um centro de detenção familiar no Texas.
Após três semanas, ambas foram liberadas. Aurora passou a usar tornozeleira eletrônica e aguarda decisão sobre seu processo migratório. Segundo ela, perdeu a moradia durante o período em que esteve presa e precisou mudar de estado.
Outro caso citado envolve Marleny, que foi presa junto com o companheiro dois meses após conseguir a liberação do filho adolescente, que havia chegado desacompanhado aos Estados Unidos. Desde então, o jovem assumiu os cuidados do irmão mais novo.
Governo afirma que medida protege crianças
Em nota enviada à Reuters, o Departamento de Segurança Interna (DHS) informou que os dados fornecidos pelo ORR são utilizados para localizar crianças entregues a responsáveis que não passaram por verificação adequada, incluindo pessoas com antecedentes criminais. O ORR afirmou que não participa das detenções e informou que sua atuação permanece voltada ao acolhimento de menores.
Especialistas apontam mudança na política migratória
A ex-diretora-adjunta do ORR durante o governo de Joe Biden, Jen Smyers, afirmou que as proteções que limitavam o compartilhamento de informações foram revertidas. Segundo ela, o programa voltado à proteção infantil passou a ser utilizado como instrumento para ampliar ações de deportação.
Permanência em abrigos aumenta
Dados do ORR mostram que o tempo médio de permanência de crianças desacompanhadas sob custódia aumentou de 30 dias, em 2024, para 194 dias em junho de 2026.
De acordo com o órgão, o aumento decorre do reforço nas verificações realizadas antes da liberação das crianças para os responsáveis, com o objetivo de ampliar a segurança durante o processo de reunificação familiar.
Fonte: g1
Foto: Octavio Jones/Reuters

