Discussão sobre condições de trabalho e remuneração da categoria expõe divergências políticas em meio ao cenário pré-eleitoral
A defesa da fiscalização do Executivo municipal e a discussão sobre o piso salarial de farmacêuticos provocaram embate entre parlamentares durante a sessão na Câmara Municipal de Manaus nessa segunda-feira (23). A divergência começou após o vereador Zé Ricardo (PT) reforçar o papel do Legislativo.
“Passam meses sem falar nada; aí chega aqui, fica ofendido quando digo que o trabalho do vereador é fiscalizar o prefeito e fica ofendido” disse o vereador. A fala gerou reação imediata de parlamentares da base do prefeito. O líder do governo na Casa, Eduardo Alfaia (Avante), criticou o posicionamento do colega.
“Querer ofender a honra de um colega é lamentável. Eu poderia aqui fazer inúmeras críticas a esse vereador que fica, a todo instante, atacando os colegas. Até porque ele já teve diversos cargos, de deputado federal e estadual, esteve no Ministério do Desenvolvimento Agrário, e eu não conheço nenhuma ação dele”, disse Eduardo.
Na mesma linha, o vice-líder Gilmar Nascimento (Avante) atribui o tom das críticas ao cenário eleitoral. “É ano de eleição e alguns ficam ferozes, e outros ficam mansinhos. Me senti contemplado na fala do líder Eduardo Alfaia, e a gente precisa entender que são 41 vereadores com pensamentos diferentes. Tudo tem hora certa e lugar certo. O vereador Zé Ricardo fala, fala, fala, e eu não vejo acontecendo do outro lado”.
Antes do confronto, o tema do piso salarial dos farmacêuticos já mobilizava a sessão. O vereador Marcelo Serafim (PSB) afirmou articulação política para a pauta. “Precisamos angariar o máximo de votos pela aprovação do piso salarial”.
A proposta de criação de um piso nacional para farmacêuticos está em tramitação no Congresso e é defendida por entidades da categoria como forma de corrigir distorções históricas na remuneração. Um dos projetos prevê piso em torno de R$ 6,5 mil, com adicional para responsáveis técnicos, além de reajustes periódicos.
Dados de conselhos profissionais apontam que, mesmo sendo uma profissão da área da saúde com formação superior obrigatória, há casos de salários próximos a R$ 1,5 mil mensais para jornadas de até 44 horas semanais, cenário considerado incompatível com o nível de responsabilidade técnica exigido. Além da remuneração, a jornada de trabalho é outro ponto central. A categoria reivindica a redução para 30 horas semanais, argumento sustentado pelo caráter exaustivo da atividade e pelos riscos associados à sobrecarga, como erros na dispensação de medicamentos.
No cenário atual, regimes como a escala 6×1 ainda são comuns, especialmente no setor privado. Propostas em discussão no Congresso buscam reduzir a carga semanal e até extinguir esse modelo, com o argumento de melhorar a qualidade de vida dos trabalhadores e reduzir impactos do excesso de trabalho.
Durante a sessão, o conselheiro federal de Farmácia no Amazonas, Jardel Inácio, defendeu a pauta da categoria. “Isso não é uma briga que a gente quer causar desregulação no serviço público ou privado. A gente quer somente que, assim como o setor privado lucra bilhões com suas farmácias, esses farmacêuticos tenham dignidade para sustentar suas famílias. Nossa luta hoje é pela aprovação do nosso piso salarial”.

