Celular impulsiona leitura digital e amplia acesso a livros e outros conteúdos no Brasil

Pesquisa aponta cerca de 94 milhões de leitores digitais no país e mostra que smartphone é principal dispositivo usado para consumir livros, audiolivros e textos

Cerca de 94 milhões de brasileiros são leitores digitais, segundo a pesquisa Perfil e Hábito do Leitor Digital Brasileiro, realizada pela Nielsen BookData. O levantamento mostra que o celular é o principal dispositivo utilizado para acessar livros digitais, audiolivros, notícias, artigos, quadrinhos e outros conteúdos, além de apontar que a tecnologia amplia o acesso à leitura em diferentes regiões e classes sociais.

O estudo reúne 3 mil entrevistas realizadas entre 1º e 11 de junho de 2026 com pessoas de todas as regiões e classes sociais do país. Os dados são apresentados nesta quarta-feira (2), em Brasília.

Celular é principal porta de entrada

Entre os entrevistados que leem livros digitais ou ouvem audiolivros, 72% utilizam o smartphone para acessar esses conteúdos. Quando considerados outros tipos de textos, como notícias e artigos, a preferência pelo celular chega a 85%.

A técnica de enfermagem e cuidadora Maria das Neves de Araújo Alves, de 60 anos, é um exemplo desse comportamento. Moradora de Valparaíso de Goiás e trabalhadora em Brasília, ela passa cerca de três horas por dia em deslocamentos de ônibus e aproveita parte desse período para ler romances e livros de ação.

“Prefiro ler no telefone porque ele está sempre comigo e posso ler no ônibus, no posto de saúde, em quase todo lugar”, conta Nevinha à Agência Brasil.

A leitora afirma que mantém o hábito há pelo menos quatro anos e escolhe os títulos diretamente na plataforma que utiliza. Para ela, o acesso digital também reduz obstáculos relacionados ao transporte e ao custo dos livros físicos.

“O livro se torna mais difícil para mim, porque é mais um peso para eu carregar na bolsa, no ônibus. E eu teria que ou comprá-lo ou ir a uma biblioteca – e não há nenhuma perto de onde eu moro”, explica.

Facilidade de acesso influencia escolha

A pesquisa mostra que a facilidade de acesso é o principal motivo apontado por leitores para escolher o formato digital. Entre os entrevistados, 61% citam esse fator.

Outros 48% afirmam preferir o formato digital pela possibilidade de transportar vários livros em um único dispositivo. O preço mais baixo em comparação com títulos impressos também aparece entre os principais motivos.

O levantamento aponta ainda uma presença significativa das classes C, D e E entre os leitores digitais. Juntas, elas representam 64% do público pesquisado, sendo 46% da classe C e 18% das classes D e E. A classe B corresponde a 29% e a classe A, a 7%.

Os leitores digitais são predominantemente jovens adultos, com maior concentração entre 18 e 44 anos. As mulheres representam 56% do público.

Leitura gratuita e acesso legal

A pesquisa também identifica desafios relacionados ao acesso gratuito a livros digitais. Entre os entrevistados, 48,8% afirmam ter consumido livros ou audiolivros obtidos gratuitamente em sites, aplicativos ou links não oficiais.

Ao mesmo tempo, 46,4% relatam utilizar sites institucionais e obras em domínio público. O estudo aponta que 46% dos entrevistados nem sempre sabem se um livro digital gratuito é disponibilizado de forma legal ou autorizada.

Outro dado indica o impacto percebido da tecnologia sobre o hábito de leitura. Segundo a pesquisa, 43% dos participantes afirmam que leem “muito mais” graças às oportunidades oferecidas pelo ambiente digital.

Tecnologia amplia alcance da leitura

Para Rodrigo Meinberg, executivo-chefe da plataforma Skeelo, que contribuiu para viabilizar a pesquisa, o avanço das tecnologias digitais não necessariamente representa uma ameaça ao livro físico, mas pode ampliar o contato da população com a leitura.

“Talvez nunca antes na História tantas pessoas tenham falado sobre livros como agora, com as redes sociais, que são fontes geradoras de descoberta de novos autores”, afirma Meinberg.

O executivo também destaca a distribuição desigual de livrarias pelo país. Segundo dados do IBGE citados por ele, em 2018 apenas 18% dos 5.570 municípios brasileiros tinham uma livraria.

“Já a rede móvel [de telefonia] chega onde as livrarias não chegam. Ou seja, estamos diante de uma grande oportunidade”, declara. Segundo Meinberg, 47 milhões de brasileiros tiveram contato, nos 12 meses anteriores à pesquisa, com pelo menos um livro digital, PDF ou audiolivro.

Inclusão digital e formação de leitores

Para Rafael Lunes, presidente do Instituto para a Democratização da Leitura Digital, a tecnologia pode contribuir para reduzir barreiras físicas ao acesso à cultura e à educação.

“O cenário da leitura em um país continental, gigantesco, como o Brasil, apresenta um paradoxo persistente: avançamos significativamente na alfabetização, mas temos ainda milhares de municípios brasileiros sem uma única livraria ou biblioteca operacional”, afirma.

Lunes defende que o desafio não está apenas em ampliar a capacidade de leitura, mas também em formar leitores habituais e garantir acesso a livros de qualidade.

“A tecnologia nos permite transformar as telas digitais de inimigas em aliadas deste processo”, conclui.

Fonte: Agência Brasil

Foto: Fabio Rodrigues-Pozzebom/ Agência Brasil

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