Parlamentares afirmam que a suspensão temporária de sanções pode financiar a guerra contra a Ucrânia; presidente dos EUA defende medida como forma de reduzir os preços dos combustíveis
O presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, enfrenta críticas de parlamentares republicanos e democratas após anunciar um acordo com o presidente da Rússia, Vladimir Putin, para liberar remessas de diesel russo ao mercado norte-americano e internacional. A medida prevê a suspensão temporária de sanções sobre as exportações do combustível e ocorre em meio à alta dos preços globais de energia provocada pela guerra envolvendo Estados Unidos, Israel e Irã.
Na sexta-feira (9), Trump afirmou que Putin havia concordado em liberar inicialmente 300 mil toneladas de diesel. Segundo o presidente norte-americano, outras remessas seriam enviadas nos meses seguintes, incluindo 500 mil toneladas em novembro e volumes adicionais que poderiam chegar a milhões de toneladas.
Trump justificou a iniciativa como uma forma de aliviar os custos para consumidores e setores econômicos dependentes do combustível. Em publicação na rede Truth Social, afirmou que preços mais baixos para os americanos, especialmente agricultores, pecuaristas e caminhoneiros, eram sua principal prioridade.
Senadores questionam legalidade do acordo
Sete senadores norte-americanos, quatro republicanos e três democratas, contestaram o acordo e pediram que Trump reveja a decisão. Segundo os parlamentares, a medida contraria restrições legais impostas às importações de energia russa após a invasão da Ucrânia, em 2022.
Os legisladores afirmaram que os Estados Unidos não deveriam oferecer um “porto seguro financeiro” à Rússia enquanto o país continua realizando ataques que matam civis ucranianos.
O grupo é formado pelos republicanos Susan Collins, Lisa Murkowski, Thom Tillis e John Curtis, além dos democratas Jeanne Shaheen, Richard Blumenthal e Ron Wyden.
O Departamento do Tesouro dos Estados Unidos suspenderá as sanções sobre as exportações de diesel russo até 7 de abril, conforme os termos divulgados para o acordo. Outros ativos russos, incluindo recursos mantidos em bancos norte-americanos, permanecerão congelados.
O vice-primeiro-ministro russo Alexander Novak confirmou os volumes anunciados por Trump à agência estatal Tass e afirmou que as exportações poderiam chegar a três milhões de toneladas mensais no futuro.
Zelensky critica acordo com Moscou
O presidente da Ucrânia, Volodymyr Zelensky, criticou a iniciativa e classificou o acordo como um presente ao governo russo. Para ele, a medida representa um investimento em uma guerra que deveria terminar.
A decisão também recebeu críticas de autoridades internacionais. O primeiro-ministro do Canadá, Mark Carney, e o secretário de Defesa do Reino Unido, Wes Streeting, defenderam que os Estados Unidos e os demais aliados ucranianos aumentem a pressão sobre Moscou para encerrar o conflito.
Em outra frente, Trump afirmou no domingo (11) que Rússia e Ucrânia haviam chegado a um “cessar-fogo energético”, mas não apresentou detalhes sobre os termos do entendimento. Zelensky saudou o anúncio, enquanto não havia resposta de Moscou no momento da publicação da reportagem original.
Preços dos combustíveis pressionam governo americano
A alta dos combustíveis se tornou um dos principais desafios econômicos e políticos para Trump. Desde o início do conflito envolvendo Estados Unidos, Israel e Irã, no fim de fevereiro, as hostilidades têm afetado o fornecimento global de petróleo, matéria-prima utilizada na produção de gasolina e diesel.
O setor agrícola norte-americano está entre os mais expostos à elevação dos preços, já que máquinas agrícolas e veículos de transporte dependem do combustível. A pressão também afeta o custo de distribuição de mercadorias.
Segundo os dados citados na reportagem original, o preço médio do diesel nos Estados Unidos chegou a US$ 6,28 por galão, equivalente a aproximadamente R$ 31,32, após atingir o recorde de US$ 6,53 no fim de setembro.
A proposta de importar diesel russo, porém, tem sua eficácia questionada por analistas. Os Estados Unidos consomem cerca de 3,6 milhões de barris de diesel por dia, e ainda há dúvidas sobre a capacidade russa de cumprir os volumes anunciados e sobre o efeito das remessas nos preços pagos pelos consumidores.
Acordo ganha peso antes das eleições legislativas
A controvérsia ocorre poucas semanas antes das eleições de meio de mandato nos Estados Unidos, previstas para novembro. A votação definirá se o Partido Republicano manterá o controle do Congresso.
Pesquisas citadas pela reportagem indicam insatisfação de parte da população com a condução da economia e do conflito no Irã. Nesse cenário, a redução dos custos de energia se tornou uma prioridade para o governo Trump.
Embora alguns parlamentares defendam o acordo como uma alternativa para aliviar os preços, outros afirmam que a medida pode enfraquecer as sanções contra Moscou e entrar em contradição com a política norte-americana de apoio à Ucrânia.
Fonte: g1 Mundo
Foto: Andrew Harnik/Getty Images via BBC

